quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Conferência de D. Athanasius Schneider em Lisboa (Parte III)

Nota - A primeira parte deste resumo encontra-se aqui: Conferência de D. Athanasius Schneider em Lisboa (Parte I)
A segunda parte deste resumo encontra-se aqui: Conferência de D. Athanasius Schneider em Lisboa (Parte II).
Na visita a Lisboa, D. Athanasius abriu a sua conferência a uma sessão de questões (Q) e respostas (R). Deixamos aqui algumas delas:

Q – D. Athanasius falou-nos da necessidade de maior reverência ao Santíssimo Sacramento para a renovação da Igreja. No entanto, não devemos esperar que nos seja dado o exemplo pelos membros da Igreja com maior representatividade, como os padres e as freiras, por exemplo?

R – A providência divina ao longo da história sempre se serviu dos pequeninos para os seus desígnios. Estes não são necessariamente os pequeninos da nomenclatura da Igreja. Os leigos como vocês, por exemplo, podem ser um exemplo de reverência e adoração a Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento, mesmo se os padres e freiras assim não o fizerem. Assim é o Corpo Místico de Cristo: quando falha um membro, Deus suscita outros membros para fazerem a sua função.

Q – Do que nos falou a respeito da reverência a Jesus Eucarístico, considera que de toda a reforma litúrgica vieram traços negativos?

R – Antes de mais convém esclarecer que a reforma litúrgica não é matéria infalível, há a possibilidade de erro. De facto há momentos não tão felizes derivados dessa reforma, pois em alguns casos o que se faz de facto não corresponde aos princípios litúrgicos previamente estabelecidos, não na sua totalidade mas em algumas formas concretas da mesma. A reforma precisa de ser melhorada para se tornar mais celeste. Claramente neste momento precisamos desse melhoramento.

Q – Falou da centralidade de Jesus Eucarístico na Eucaristia em detrimento de nos centrarmos no sacerdote. Se me lembro bem, aprendi que o Padre actua in persona Christi. Não estamos assim a dar o realce devido a Cristo através do celebrante?

R –  O celebrante actua in persona Christi Capitis, mas isso não significa que seja o elemento principal da celebração, que é Cristo. O celebrante é ministro secundário, Cristo é o ministro principal. O celebrante é instrumento de Cristo, que actua por meio dele. Por isso mesmo deve ser modesto e “desaparecer”, para dar espaço a Cristo.

Q – A Igreja permite a comunhão na mão e existem textos da Igreja primitiva que mostram que é uma prática já antiga. Porquê a oposição?

R – O que estamos a viver hoje é uma espécie de “Exílio de Avinhão” da Liturgia. Como sabem, nos séculos XIII e XIV viveu-se um tempo em que o Papa, sucessor de Pedro, residia em Avinhão. As consequências negativas que daí poderiam advir eram grandes, como a questão da sucessão do Apóstolo e o seu primado. No entanto, apesar de ser algo com consequências evidentemente más para a Igreja, muitos aceitavam-no, incluindo o próprio Papa. Ninguém ousava criticar a situação. Quem falou foram os pequeninos que tiveram a ousadia, como Santa Brígida e Santa Catarina e o Papa acabou por regressar a Roma. Note-se que o exílio era legal, permitido e defendido por muitos, mas não era isso que o fazia ser bom ou isento de crítica. O Papa é o Servo dos Servos de Deus e não um monarca absoluto, pois está ao serviço do Povo de Deus. Hoje, Santa Catarina é Doutora da Igreja.

No que respeita a prática da comunhão na mão na Igreja primitiva convém esclarecer a situação, pois é um mito recorrente. O único texto dos padres da Igreja que fala da comunhão na mão é de S. Cirilo de Jerusalém, que não é magistério. Além do mais, o relato da maneira de comungar aí presente é substancialmente diferente ao gesto hoje usado ao comungar na mão. Em primeiro lugar, comungava-se recebendo o Corpo de Cristo na mão direita, que tinha de estar lavada e, no caso das senhoras, tinha de estar coberta por um corporal. Depois, o comungante inclinava-se para estar abaixo da mão que tinha o Corpo de Cristo e recebia-o directamente na boca, sem alguma vez O tocar com os dedos. Portanto, era muito diferente do gesto que hoje se faz para comungar na mão, que não é um gesto da Igreja antiga. O gesto que hoje se usa é um gesto que se foi buscar aos Calvinistas, na sua forma de comungar. Mesmo a respeito da forma descrita por S. Cirilo de Jerusalém, esta forma de comungar quase instintivamente se deixou para adoptar uma outra forma, mais segura. Houve um crescimento orgânico e a prática deixou-se e diz-nos o Papa Pio XII que não podemos restaurar as coisas simplesmente antigas, pois o crescimento destas é orgânico.

Convém ainda relatar a maneira como hoje é permitida a comunhão na mão. Antes de ser concedido o indulto para se poder comungar na mão, o Papa Paulo VI sondou os Bispos para saberem o que pensavam desta prática. A maioria dos bispos rejeitou-a: consideravam perigosa, pois é menos reverente, contribui para a diminuição da fé na presença real de Cristo na Eucaristia e abre a porta a sacrilégios daí derivantes. O indulto foi concedido sob um conjunto de condições, sendo que quando o fez o Papa apelou a que se mantivesse o rito tradicional de receber a comunhão. Aberta a porta, sabemos que daí veio uma avalanche de coisas.

Q – Em muitos casos, como por exemplo em peregrinações a Fátima, parece difícil manter a reverência de que fala para com a Eucaristia, em particular quando é distribuída a comunhão…

R – É uma situação muito grave a que relata. Em muitos casos de grandes multidões não é possível controlar se não há sacrilégios para com a Eucaristia. Se de facto esta é para nós Deus encarnado, é contraditório distribuir a Comunhão quando não fazemos ideia do que poderá acontecer. Por isso, em tais eventos é preferível reavivar uma prática da Igreja muitas vezes esquecida: a comunhão espiritual.

Q – Será que nos pode elucidar sobre de que maneira podemos participar activamente na Missa?

R – Existe um mito que veio depois do Concílio Vaticano II que convém esclarecer: participar activamente na Missa não é fazer coisas, tarefas. Não há nada nos documentos conciliares que o diga, podem ir verificar. O que se diz sobre a participação activa na Missa, isso sim, é que consiste essencialmente numa presença consciente de que se está na Missa e não ter o pensamento fora desta. Pode-se fazê-lo escutando, fazendo os gestos corporais devidos, cantando. O cume da Participação na Missa é a Comunhão Sacramental.

Outra forma de participação proposta pela Sacrosanctum Concilium, que talvez vos admire, é o Silêncio. No fundo, é fazer concordar o coração com o que dizemos pelos lábios. 


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terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O que a Forma Extraordinária significa para mim

Encontro-me em circunstâncias privilegiadas em relação à maior parte dos fiéis portugueses. A crise em Portugal obrigou-me a emigrar e, graças a tal, tenho a possibilidade de participar na vetus ordo semanalmente. É sobre a minha vivência da vetus ordo que vos quero falar, sobretudo aos leitores portugueses que, por um motivo ao outro, se vêm privados da FE em terras lusitanas. Desde já o seguinte caveat: não pretendo ser polémico, nem pretendo demonstrar que a novus ordo é pior que a vetus ordo; simplesmente quero apresentar alguns motivos porque esta última me ajuda a viver melhor a nossa Fé. Irei-me focar muito sumariamente em apenas três aspectos. As palavras seguintes serão as minhas opiniões – fruto de meditação, mas mesmo assim opinião, portanto têm o valor que têm.

Próprios

Posso contar nos dedos a quantidade de vezes que ao longo dos anos ouvi os próprios nas várias Missas paroquiais em que participei em Portugal. Que existam lugares onde se utilizem, não duvido. É falha da novus ordo? Não, pois os próprios estão lá; se se optam por outros textos, os motivos que levam a tal já me são alheios.

Não existindo a possibilidade de escolher outros textos que não os próprios que vêm no missal (que por sua vez vêm dum livro chamado Graduale), a vetus ordo coloca-nos obrigatoriamente em contacto com estes. Os próprios falam-nos da festa que se está a celebrar, seja dum santo seja duma efeméride. Ajudam-nos a sentir cum Ecclesiae; colocam-nos na boca as palavras através das quais a Igreja entende o acto que se está a concretizar. Devido aos próprios toda a Missa está impregnada das Escrituras; são raros os casos em que os próprios não são textos retirados das Escrituras (os casos excepcionais que me ocorrem de momento nem são no missal romano, mas sim no bracarense).

Os próprios põem-nos em contacto com o Saltério pois são maioritariamente compostos por versos tirados dos Salmos. Enquanto que a exposição principal aos Salmos nas celebrações da novus ordo se dá aquando do Salmo responsarial (porque se opta muitas vezes por ignorar os próprios), na vetus ordo toda a celebração é intercalada com versos dos Salmos. Encontramos os Salmos no Intróito, no Gradual, no Tracto, no Aleluia, no Ofertório e na antífona da Comunhão. É também através dos próprios que a Igreja nos ajuda a interpretar as Escrituras.

Veja-se, por exemplo, o caso dos próprios da primeira Missa do Natal. O Intróito é Sl 2, 7.1: Dominus dixit ad me: Filius meus es tu; ego hodie genui te. Quare fremuerunt gentes, et populi meditati sunt inania? A Igreja põe estes versos do Salmo 2 na boca de Cristo; dá-lhes uma interpretação cristológica. O Gradual vai buscar o Sl 109, 3.1Tecum principium in die virtutis tuæ in splendoribus sanctorum: ex utero, ante luciferum, genui te. Dixit Dominus Domino meo: Sede a dextris meis, donec ponam inimicos tuos scabellum pedum tuorum e dá-lhes também uma interpretação cristológica (interpretação essa que já o próprio Jesus tinha dado, como podemos atestar nos Evangelhos). O Ofertório apresenta Sl 95, 11.13 Lætentur cæli, et exsultet terra;
commoveatur mare et plenitudo ejus; a facie Domini, quia venit. Mais uma vez a Igreja, utilizando este verso na sua Liturgia, mostra-nos que ele se refere a Cristo e ao Seu nascimento.

Repetição

Umas das coisas que talvez salte à vista (e aos ouvidos) de quem participa pela primeira na vez na Missa segundo a vetus ordo são as repetições. São as vezes que o sacerdote se vira do altar para a congregação; o tríplice bater no peito durante o Confiteor; os vários ósculos que o sacerdote faz ao altar; os vários sinais da cruz; as varias genuflexões;… Apesar da vetus ordo ser o rito menos “floreado” dos ritos latinos (o rito bracarense, como praticamente todo o uso medieval, tem bastante mais “ritual”), é notoriamente mais ritualizado que a novus ordo. Mas porque dar importância às repetições? Não são as repetições maçadoras ou supérfluas? Creio que não; antes pelo contrário, creio que são bastante pedagógicas para o crente que participa na Missa e ajudam melhor a entrar no mistério. Acredito que quem esteja atento ao que se passa durante a celebração é levado a questionar-se sobre o porquê da repetição de certos gestos e palavras. 

A Igreja, na sua sabedoria, instrui os seus filhos através da repetição. Estas repetições de gestos e palavras são, entre outras coisas, chamadas de atenção; obrigam-nos a focar no que se está a fazer ou chamam-nos de volta se por acaso nos tenhamos distraído. Quantas vezes não me distraí após o Pater Noster e é a segunda ou terceira repetição de Domine non sum dignus que sou chamado de volta à realidade. Nenhum gesto é supérfluo; tudo tem o seu significado e cabe a nós descobri-lo e apropria-lo ao invés de ceder a soberba e dizer “não entendo a razão de ser disto, logo deve estar errado”. Diz Origenes que o corpo é ícone da alma, portanto a postura e os gestos fazem parte da oração. Os Padres da Igreja dão testemunho de como o corpo é importante na oração (os Nove Modos de Orar de S. Domingos atestam a este facto); de facto a vetus ordo acaba por envolver mais a corporalidade da oração através de gestos que já nos vem de tempos remotos.

Participação

Após regressar a Igreja ouvi falar muito de participação activa e era bombardeado com opiniões contraditórias do que isso significaria.

Foi sobretudo o frequentar a vetus ordo que me ensinou a participar na Liturgia, seja em que rito ou forma for. Participação activa no seu sentido mais pleno é participar na Paixão de Cristo, completando o que falta nas Suas tribulações (cf Col 1, 24). Assistir a Missas solenes ajudou bastante para esclarecer qual o papel dos leigos na Missa (uso aqui a palavra assistir não no sentido de espectador, como é usual entender-se quando se critica que “não se assiste à Missa”, mas no sentido de quem ajuda, de quem dá apoio, que é o verdadeiro sentido). Para quem assiste pela primeira vez a uma Missa solene, parecerá certamente tudo uma confusão. Estão várias coisas a acontecer ao mesmo tempo: o sacerdote e os seus ministros estão a rezar orações que lhes são próprios, o coro está a cantar algum dos próprios da Missa do dia, os leigos estão a fazer alguns gestos (ou até a acompanhar o coro se souberem) ou estão “apenas” receptivos, atentos ao que se passa. Mas o que é à primeira vista uma confusão revela-se de facto uma sinfonia. Cada grupo está a exercer o seu munus, cada qual tem o seu papel a desempenhar na Liturgia.

Inicialmente seguia tudo pelo missal. E apesar de ainda recorrer por vezes ao missal (sobretudo para ver os próprios), com o passar do tempo tenho-me familiarizado mais e mais com a estrutura da Missa em si. A familiarização com a estrutura da Missa ajuda a que eu junte as minhas orações pessoais às do sacerdote nos momentos em que os leigos nada têm a responder durante a Missa. Vou aprendendo a trazer para a Liturgia a minha vida, a oferecê-la aquando do Ofertório para que aquilo que o sacerdote, através de Cristo, realiza ao oferecer o pão e vinho se venha a realizar em mim, para que o Cristo que se torna presente sobre o altar se vá tornando presente em mim. Nas orações do Canon junto as minhas intenções às do sacerdote, para que ele as apresente sobre o altar. 

Termino por aqui este breve resumo, deveras incompleto, da minha participação na vetus ordo. Teria muito mais a dizer sobre outros aspectos, mas creio que outros já o terão dito e melhor do que eu alguma vez o poderia dizer. Desejo apenas que este testemunho acenda nalgum leitor português o desejo de descobrir o seu património litúrgico, de não o descartar logo a partida, e qual pai de família aprenda a tirar deste tesouro coisas novas e velhas.

Marco da Vinha in Salvem a Liturgia


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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Um 'mal menor' nunca pode ser bom

O Natal é o maior hino – o hino de Deus – à vida humana. Apesar de todas as suas limitações, o homem é um ser tão elevado, tão digno, que o Criador não teve pejo em unir a sua natureza à nossa. De facto, o homem e a mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus, justamente para participarem da infinita felicidade divina.

Com todas as limitações de criaturas, há em nós uma tal grandeza que nos leva a aspirar ao infinito – ao infinito poder, à omnisciência, à vida eterna, à suprema beleza, ao amor sem fim... A Deus, numa palavra. E o nosso coração não sossega enquanto em Deus não repousa, como dizia Santo Agostinho.

A consciência intuitiva desta grandeza choca, no entanto, com a fraqueza evidente que a toda a hora sentimos: tanto a fraqueza física como a fraqueza moral. E aí está uma das razões pelas quais muitas vezes perdemos a «auto-estima»: queremos ser fortes, e a doença abate-nos; queremos ser bons, e abatem-nos as tentações... Mas a pior tentação é aquela de que tratávamos no boletim anterior: «Afinal, temos de pecar...»

Já vimos que em boa parte essa ideia errada procede de chamarmos pecado ao que não o é; mas também pode nascer de um princípio mal entendido, que invocamos com frequência: o princípio do «mal menor». Por vezes encontramo-nos perante dois males – dizemos - e havemos por força de escolher algum; logo, o menor! Por exemplo, um polícia persegue um ladrão em flagrante delito; só disparando pode capturá-lo; não deve atirar à cabeça nem ao peito, mas às pernas. É um mal menor... Simplesmente, o exemplo não serve: o polícia faz bem, não faz mal, em tentar apanhá-lo. A sua função é a de manter a ordem social com o menor custo possível de vidas e bens. Não escolhe nesse caso entre dois males, mas entre um bem – cumprir o seu dever  – e um mal: feri-lo desnecessariamente.

Nunca se deve fazer um mal, nem grande nem pequeno. Nem sequer para que daí venha um bem... Temos ouvido falar das chamadas «mentiras piedosas»: - «Minto para que haja paz...» Parece realmente que obtive um bem, porque as pessoas não se zangaram, mas é um bem enganador, porque, se perdemos a confiança mútua, nunca mais haverá paz «sustentável», como agora se diz. Instalando-se a mentira, instala-se a desconfiança.

Por esse caminho errado também se legitimaria matar uma pessoa inocente «para salvar a Nação», como justificavam os fariseus a condenação à morte de Jesus. Também lhes parecia «um mal menor». Não tem faltado mesmo quem cometa genocídios por esse mesmo (desvirtuado) princípio: para «libertar» o país de um sector incómodo e «menor» da população...

E hoje em dia veja-se o aborto legalizado, pior e muito mais extenso  do que todos os genocídios. Não há quem não veja no aborto voluntário um mal, e mesmo um horror, mas há quem o justifique por esse (mal entendido) princípio: «para evitar um mal maior», como seria a sobrepopulação, ou o trauma da mulher, ou a falta de progresso científico, ou até a falta de «qualidade de vida» do nascituro... Acontece, porém, que não há mal maior do que o aborto legal: matar deliberada e legalmente um inocente é a subversão total do direito, da medicina, da ciência, da política, da cultura, da técnica, da civilização, além de ser a destruição deliberada de uma vida humana («inviolável», segundo proclama a nossa Constituição..., violada ela própria por essa lei iníqua). Porque tudo se deve dirigir ao bem do homem, e não ao seu aniquilamento.

Mas, além disso, ainda que nos parecesse um «mal menor», seria um mal; ninguém teria o direito de o cometer. Se não se deve mentir, quanto menos matar - e matar um inocente! Um filho!

Então, que significa esse princípio? Significa, não que possamos cometer um mal, mas sim tolerar algum mal, alheio, para evitar males maiores. É o caso do pai que deixa passar por alto uma impertinência do filho para evitar exasperá-lo, e esperando que se acalme; o caso do professor que tolera alguma indisciplina, esperando que a sua compreensão e amizade acabem por conquistar os alunos; o caso da polícia que não prende todos os carteiristas, porque mais vale conhecê-los e controlá-los do que ignorar os que lhes sucedem nas suas «zonas»; o caso das «toleradas» (assim se chamavam as prostitutas), pela mesma razão; o caso dos juizes que aplicam leves penas ou absolvem as mulheres que abortam, pois sabem que a maior pena delas é a lembrança do filho despedaçado, e para que não façam delas bandeiras políticas; o caso de um empresário, que não expulsa um operário logo ao primeiro abuso registado; o caso dos governos que amnistiam insurreições, para abrir caminho à pacificação do país; etc.

O princípio do «mal menor», portanto, é afinal o princípio da tolerância, que faz parte da prudência doméstica e política. E procede da visão realista da natureza humana: o homem não nasce perfeito: tem de aprender com tempo e esforço, tem de começar e recomeçar; e corrigir-se muitas vezes; e mesmo assim continua fraco, frágil, propenso ao mal... Sejamos pacientes com as fraquezas humanas, inclusive com as nossas; mas não as justifiquemos; não as legitimemos, porque seria um endurecimento da consciência; e não as legalizemos, que é um incentivo ao mal. Não há nenhum «mal menor» que seja bom.

Mons. Hugo de Azevedo in juntospelavida.pt


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Eu posso aspirar à Santidade

"Sempre desejei ser uma santa. O bom Deus não inspira desejos irrealizáveis, eu posso, portanto, aspirar à santidade apesar de minha pequenez”

Santa Teresinha do Menino Jesus, 2 de Janeiro de 1873


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domingo, 27 de dezembro de 2015

O Natal contado por crianças



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Jesus nasceu em Belém ou em Nazaré?

S. Mateus disse, de maneira explícita, que Jesus nasceu em “Belém de Judá, no tempo do rei Herodes” (Mt 2, 1; cf. 2, 5.6.8.16) e o mesmo referiu S. Lucas (Lc 2, 4.15). O quarto evangelho menciona-o de uma maneira indirecta. Gerou-se uma discussão a propósito da identidade de Jesus e “uns diziam: «Este é verdadeiramente o Profeta». Outros diziam: «Este é o Messias». 

Alguns, porém, diziam: «Porventura é da Galileia que há-de vir o Messias? Não diz a Escritura que o Messias há-de vir da descendência de David e da aldeia de Belém, donde era David?»” (Jo 7, 40‑42). O quarto evangelista serve-se aqui de uma ironia: ele e o leitor cristão sabem que Jesus é o Messias e que nasceu em Belém. Alguns oponentes a Jesus querem demonstrar que Ele não é o Messias dizendo que, para sê-lo, teria nascido em Belém e, pelo contrário, eles sabem (pensam saber) que nasceu em Nazaré. Este procedimento é habitual no quarto evangelho (Jo 3, 12; 6, 42; 9, 40-1). 

Por exemplo, quando a mulher samaritana pergunta: “És Tu, porventura, maior do que o nosso pai Jacob?” (Jo 4, 12). Os ouvintes de João sabem que Jesus é o Messias, Filho de Deus, superior a Jacob, de modo que a pergunta da mulher era uma afirmação dessa superioridade. Portanto, o evangelista prova que Jesus é o Messias, inclusivamente com as afirmações dos seus oponentes.

Este foi o consenso comum entre crentes e investigadores durante mais de 1900 anos. Contudo, no século passado, alguns investigadores afirmaram que Jesus é considerado em todo o Novo Testamento como “o nazareno” (aquele que é, ou que provém de Nazaré) e que a referência a Belém como lugar do nascimento não passa de uma invenção dos dois primeiros evangelistas, que revestem Jesus com uma das características que, naquele momento, se atribuíam ao futuro Messias: ser descendente de David e nascer em Belém. O certo é que uma argumentação como esta não prova nada. 

No século I diziam-se bastantes coisas sobre o futuro Messias e que não se cumprem em Jesus, mas, tanto quanto sabemos – apesar do que possa parecer (Mt 2, 5; Jo 7, 42) – não parece que a do nascimento em Belém tenha sido umas das que se invocaram mais frequentemente como prova. É antes preciso pensar de modo contrário: é pelo facto de Jesus, que era Nazaré (ou seja, tendo sido criado lá), ter nascido em Belém que os evangelistas descobrem nos textos do Antigo Testamento que se cumpre n´Ele essa qualidade messiânica.

Todos os testemunhos da tradição confirmam, além disso, os dados evangélicos. S. Justino, nascido na Palestina por volta do ano 100 d.C., menciona, uns cinquenta anos mais tarde, que Jesus nasceu numa gruta próxima de Belém (Diálogo 78). Orígenes também dá testemunho disso (Contra Celso I, 51). Os evangelhos apócrifos testemunham o mesmo (Pseudo-Mateus, 13; Proto evangelho de Tiago,17ss; Evangelho da infância, 2-4).

Em resumo, o parecer comum dos estudiosos de hoje, é que não há argumentos fortes para ir contra o que afirmam os evangelhos e nos foi transmitido por toda a tradição: Jesus nasceu em Belém da Judeia no tempo do rei Herodes.

Bibliografia: A. Puig, Jesús. Una biografía, Destino, Barcelona 2005; J. González Echegaray,Arqueología y evangelios, Verbo Divino, Estella 1994; S. Muñoz Iglesias, Los evangelios de la infancia. IV, BAC, Madrid 1990.

in adtelevavi.blogspot.pt (originalmente escrito por Vicente Balaguer in opusdei.pt)


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sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O Natal descrito pelos Padres da Igreja

«Reconheçamos o verdadeiro dia e tornemo-nos dia! Éramos, na verdade, noite quando vivíamos sem a fé em Cristo. E uma vez que a falta de fé envolvia, como uma noite, o mundo inteiro, aumentando a fé a noite veio a diminuir. Por isso, com o dia de natal de Jesus nosso Senhor a noite começa a diminuir e o dia cresce. Por isso, irmãos, festejemos solenemente este dia; mas não como os pagãos que o festejam por causa do astro solar; mas festejemo-lo por causa daquele que criou este sol. Aquele que é o Verbo feito carne, para poder viver, em nosso benefício, sob este sol: sob este sol com o corpo, porque o seu poder continua a dominar o universo inteiro do qual criou também o sol. Por outro lado, Cristo com o seu corpo está acima deste sol que é adorado, pelos cegos de inteligência, no lugar de Deus que não conseguem ver o verdadeiro sol de justiça». 
Santo Agostinho

«Ele está deitado numa manjedoura, mas contém o universo inteiro; mama num seio materno, mas é o pão dos anjos; veio em pobres panos, mas reveste-nos de imortalidade; é amamentado, mas é também adorado; não encontrou lugar na estalagem, mas constrói para si um templo no coração dos seus fiéis. Tudo isto para que a fraqueza se tornasse forte e a prepotência se tornasse fraqueza. Por isso, não só não menosprezamos, mas mais admiramos o seu nascimento corporal e reconhecemos neste acontecimento quanto a sua imensa dignidade se humilhou por nós». 
Santo Agostinho

«Chama-se dia do Natal do Senhor a data em que a Sabedoria de Deus se manifestou como criança e a Palavra de Deus, sem palavras, imitou a voz da carne. A divindade oculta foi anunciada aos pastores pela voz dos anjos e indicada aos magos pelo testemunho do firmamento. Com esta festividade anual celebramos, pois, o dia em que se realizou a profecia: A verdade brotou da terra e a justiça desceu do céu (Sl 84,12)». 
Santo Agostinho

«Neste dia, o Verbo de Deus revestiu-se de carne e nasceu de Maria virgem. Nasceu de modo admirável... Donde veio Maria? De Adão. Donde veio Adão? Da terra. Se Adão veio da terra e Maria de Adão, também Maria é terra. E se Maria é terra, entendemos quando cantamos: a verdade brotou da terra». 
Santo Agostinho

«Jesus é o novo sol que atravessa as paredes, invade os infernos, perscruta os corações. Ele é o novo sol que com os seus espíritos faz reviver o que está morto, restaura o que está velho, levanta o que está decadente e purifica ainda, com o seu calor, aquilo que é impuro, aquece o que está frio e consome o que o que não presta». «Preparemo-nos pois, irmãos, para acolher o natal do Senhor, adornemo-nos com vestes puras e elegantes! Falo, claro está, das vestes da alma, não do corpo… Adornemo-nos não com seda, mas com obras boas! Pois as vestes elegantes ornam o corpo, mas não podem adornar a consciência; pois seria muito vergonhoso trazer sob elegantes vestes elegantes, uma consciência contaminada. Procuremos acima de tudo embelezar os nossos afectos íntimos, e poderemos então vestir belas roupas; lavemos as manchas da alma para usarmos dignamente roupas elegantes! Não adianta dar nas vistas pelas vestes se estamos sujos em pecados, porque quanto a consciência está escura, todo o corpo fica nas trevas. Temos, porém, com que lavar as manchas da nossa consciência. Pois está escrito: Dai esmola e tudo será puro em vós (Lc 11,41). É importante este mandamento da esmola: graças a ele, ao operarmos com as mãos ficamos lavados no coração». 
São Máximo, bispo de Turim

«Nasceu hoje, irmãos, o nosso Salvador. Alegremo-nos! Não pode haver tristeza quando nasce a vida; a qual, destruindo o temor da morte, nos enche com a alegria da eternidade prometida. Ninguém está excluído da participação nesta alegria; a causa desta alegria é comum a todos, porque nossos Senhor, aquele que destrói o pecado e a morte, não tendo encontrado ninguém isento de pecado, a todos veio libertar. Exulte o santo porque está próxima a vitória; rejubile o pecador, porque é convidado ao perdão; reanime-se o pagão, porque é chamado à vida… Por isso é que, quando o Senhor nasceu, os anjos cantaram em alegria ‘glória a Deus nas alturas’ e anunciaram ‘paz na terra aos homens de boa vontade’. Porque vêem a Jerusalém celeste ser formada de todas as nações do mundo, obra inexprimível do amor divino, que, se dá tanto gozo aos anjos nas alturas do céu, que alegria não deverá dar aos homens cá na terra?». 
São Leão Magno

«Esta é a nossa festa, isto celebramos hoje: a vinda de Deus ao meio dos homens, para que, também nós cheguemos a Deus… celebremos, pois, a festa: não uma festa popular, mas uma festa de Deus, não como o mundo quer, mas como Deus quer; não celebremos as nossas coisas mas as coisas daquele que é nosso Senhor…». «Não embelezemos as portas das casas, não organizemos festas, nem adornemos as estradas, não demos banquetes em nosso proveito nem concertos para mero agrado dos ouvidos, não exageremos nos adornos nem nas comidas… e tudo isto enquanto outros padecem fome e necessidades, esses que nasceram do mesmo barro que nós». 
São Gregório de Nazianzo


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quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Mensagem do Papa Francisco para o Natal 2015



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Sermão para o nascimento de João Baptista - Santo Agostinho

«É necessário que Ele cresça e eu diminua» ( Jo 3,30)

O nascimento de João e o de Jesus, e depois a Paixão de cada um, marcaram a diferença entre eles. Com efeito, João nasce quando o dia começa a diminuir; Cristo, quando o dia começa a crescer. A diminuição do dia no caso do primeiro é um símbolo da sua morte violenta; o crescimento do dia no caso do segundo é um símbolo da exaltação da cruz.

O Senhor revela também um sentido secreto desta palavra de João acerca de Jesus Cristo: «É necessário que Ele cresça e eu diminua.» Toda a justiça humana se consumara em João, acerca de quem dizia a Verdade: «Entre os filhos das mulheres, não surgiu nenhum maior do que João Baptista» (Mt 11,11). Nenhum homem teria, pois, podido ultrapassá-lo; mas ele era apenas um homem. Ora, na graça cristã, pede-se-nos que não nos glorifiquemos no homem, «mas se alguém se glorifica que se glorifique no Senhor» (2Cor 10,17): o homem no seu Deus; o servo no seu senhor. 

É por este motivo que João exclama: «É necessário que Ele cresça e eu diminua.» Claro que Deus não diminuiu nem aumentou em Si mesmo, mas nos homens; pois à medida que progride o verdadeiro fervor, a graça divina cresce e o poder humano diminui, até que chegue à sua conclusão o reino de Deus, que está em todos os membros de Cristo, e no qual toda a tirania, toda a autoridade, todo o poder estão mortos, e Deus é tudo em todos (Col 3,11).

João, o evangelista, diz: «Ele era a verdadeira luz, que ilumina todo o homem vindo a este mundo» (1,9); por seu lado, João Baptista declara: «Nós recebemos tudo da sua plenitude» (Jo 1,16). Quando a luz, que é em si própria sempre total, cresce em quem por ela é iluminado, esse diminui em si mesmo, à medida que se vai abolindo nele o que estava sem Deus. É que o homem sem Deus nada pode, a não ser pecar, e o seu poder humano diminui quando triunfa a graça divina, destruidora do pecado. 

A fraqueza da criatura cede ao poder do Criador e a vaidade dos nossos afectos egoístas dissolve-se diante do amor universal, enquanto João Baptista nos grita, do fundo da nossa angústia, a misericórdia de Jesus Cristo: «É necessário que Ele cresça e eu diminua.»

in Sermão para o nascimento de João Baptista


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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Papa Bento XVI: Jesus nasceu mesmo no dia 25 de Dezembro

No ano 2000, Joseph Cardeal Ratzinger escreveu no seu livro Introdução ao Espírito da Liturgia que uma tradição judaica afirma que Abraão quase sacrificou Isaac no Monte Moriá a 25 de Março. O Monte Moriá é Jerusalém (ver 2Cro 34, 1) e 25 de Março é o dia em que Cristo foi crucificado no calendário solar (a Páscoa, como a Passagem Mosaica, é calculada através de um fenómeno lunar). Penso que conseguem ver que há aqui um paralelismo temporal e geográfico. Vemos que o Pai oferece voluntariamente o Seu Filho Unigénito.

O Cardeal Ratzinger também disse que se pensava que 25 de Março era o primeiro dia da criação. Assim, 25 de Março tem um significado cósmico. Sua Eminência também descreve como o zodíaco e o carneiro se relacionam com este significado cósmico na Primavera, mas isso já é demais para o que queremos. O importante aqui é que 25 de Março era o dia tradicional para a criação do mundo, para o sacrifício de Abraão e para o sacrifício do Filho de Deus.

Nas páginas 107-108 [na versão inglesa], o Cardeal Ratzinger faz a observação de que o dia da morte de Cristo também era reconhecido como o dia em que ele foi concebido pelo Espírito Santo no ventre da Santíssima Virgem Maria. 25 de Março era, então, a anunciação de Gabriel. Acrescentem-lhe nove meses e chegam ao 25 de Dezembro como o dia do Seu nascimento.

Depois, Joseph Ratzinger exclui aquilo a que ele chama "as velhas  teorias" que ensinam que 25 de Dezembro foi escolhido para substituir os feriados pagãos. Pelo contrário, o Santo Padre reconhece 25 de Dezembro como o verdadeiro dia do nascimento de Cristo Senhor. Ele vai mais além ao dizer que este alinhamento de significados tem um significado litúrgico.

Enquanto estamos neste tema, o Papa S. Leão Magno falou do significado cósmico do nascimento de Cristo na profundidade do Inverno:
Mas esta Natividade que deve ser adorada no céu e na terra é nos sugerida por nenhum outro dia que não este quando, com a luz matinal ainda a derramar os seus raios na natureza, nasce sobre os nossos sentidos o esplendor deste mistério maravilhoso.
(S. Leão Magno, Sermão 26)
Para além disso, o Papa Bento XIV argumentou ainda que os padres da igreja deviam saber o dia certo do nascimento de Cristo pelos censos romanos.

Feliz Natal! 

Taylor Marshall


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Temos que dar o que nos custa

Tendes de dar aquilo que vos custa um pouco. Não basta dar apenas aquilo de que podeis prescindir, tendes de dar aquilo de que não podeis nem quereis prescindir, as coisas às quais estais presos. Nessa altura, o que dais passa a ser um sacrifício, que tem mérito aos olhos de Deus. É aquilo a que eu chamo o amor em acção. Todos os dias vejo crescer este amor nas crianças, nos homens e nas mulheres.

Certo dia em que ia a descer a rua, aproximou-se de mim um mendigo que me disse: «Madre Teresa, toda a gente lhe oferece presentes e eu também quero dar-lhe um presente. Hoje deram-me apenas vinte e nove cêntimos durante todo o dia e eu quero dar-lhos.» Fiquei a pensar um momento: se eu aceitar estes vinte e nove cêntimos (que não valem quase nada), ele corre o risco de não ter que comer esta noite; mas, se não os aceitar, ofendo-o. 

Então, estendi a mão e aceitei o dinheiro. E nunca vi, em rosto algum, tanta alegria como a que vi no rosto deste homem, que ficou felicíssimo por ter podido oferecer qualquer coisa à Madre Teresa! Para ele, que tinha mendigado o dia todo ao calor, aquela soma irrisória, que não serviria para quase nada, era um sacrifício enorme. Mas era uma coisa maravilhosa: aquelas moeditas a que ele estava a renunciar valiam uma fortuna, por serem dadas com tanto amor.

Beata Teresa de Calcutá in 'A Simple Path'


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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O Star Wars é Cristão? A Força pode estar connosco?

E
stou muito entusiasmado. O Star Wars Episódio VII está aí. Estou mesmo contente, mas sei que nem todos partilham as minhas expectativas geeks. Algumas pessoas têm sérias dúvidas teológicas em relação ao Star Wars. Hoje vamos tentar salvar o Star Wars usando um bocado de Tomás de Aquino...

Os Cristãos (tanto protestantes como Católicos)  têm mostrado durante décadas a sua preocupação de que a visão do mundo do Star Wars não encaixa com a visão Cristã. Gostava de olhar para esta preocupação e depois tentar salvar o Star Wars para todos vocês, Cristãos e fãs do Star Wars.

O erro que muitas pessoas fazem quando criticam o Star Wars tem esta lógica: 
  1. Os Cristãos têm Deus
  2. Star Wars tem a Força
  3. Mas a Força não tem nenhum paralelo na doutrina bíblica de Deus.
  4. Portanto, o Star Wars ensina uma falsa visão do mundo, uma teologia falsa, e tem que ser rejeitado como mau.
Vejamos isto com mais detalhe.

Que a Força esteja convosco: o que raio é esta Força?

Vamos começar com o que a Força não é.
  1. A Força não é um Deus pessoal a quem se reza.
  2. A Força não é infinitamente boa ou "omnibenevolente". Há um 'lado negro' da Força.
  3. A Força não é só para os bons. Os maus também a usam e aparentemente usam-na de uma forma mais poderosa que os bons.
Parece que, na verdade, a Força é uma fonte de energia impessoal. E pode-se ver rapidamente que isto não encaixa bem com uma interpretação judaico-cristã do mundo... ou será que encaixa?

Fãs cristãos do Star Wars: Não tenham medo!

Olhemos outra vez para o argumento anti-Star Wars:
  1. Os Cristãos têm Deus
  2. Star Wars tem a Força
  3. Mas a Força não se encaixa na doutrina bíblica de Deus.
  4. Portanto, o Star Wars ensina uma visão falsa do mundo e uma teologia errada, logo tem que ser rejeitado como mau!
Vamos virar isto ao contrário. Digamos que a Força passa a ser algo diferente de Deus. Talvez a Força não seja sequer uma entidade espiritual ou um ser divino. O que precisamos é de encontrar na Força uma analogia para a nossa visão Cristã do mundo.
Pausa: Eu sei que nem sequer precisamos de fazer isto. É uma saga cinematográfica de ficção que é divertida e lendária. Mas para acalmar os que querem uma justificação filosófica, aqui vai.
Há uma coisa no nosso universo que encaixa perfeitamente com a Força. Vou seguir directamente o raciocínio de S. Tomás de Aquino, por isso sigam-me.
De acordo com Tomás de Aquino (e a tradição Católica), os humanos e os seres espirituais preternaturais (os anjos e demónios) têm um poder que se estende bem mais além das faculdades de todas as outras espécies e coisas naturais. Esta faculdade especial, partilhada pelos anjos, demónios, homens bons e homens maus chama-se intelligentia. Esta palavra vem de duas palavras latinas:
inter + legere
inter significa "entre" (como internacional) e legere significa "escolher, agarrar ou ler".

A inteligência é, então, a capacidade de escolher ou discernir entre duas coisas.

Isto é um poder (ou talvez possa ser uma força) que nos foi dado a nós por Deus omnipotente. O vosso cão, gato, peixe e planta não a têm. Mas nós temos. Os vossos anjos da guarda também têm.
Visto que temos inteligência ou razão, conseguimos manipular o nosso ambiente, manipular a natureza, manipular os objectos à nossa volta e manipular outras pessoas. A nossa influência sobre a criação através do reinado da razão pode ser mesmo boa, mas também pode ter um lado negro...

As Paixões e a Força da inteligência

De acordo com Tomás de Aquino, há onze paixões. As emoções como o medo, a alegria e a ira. Devido ao pecado original, estas paixões podem interferir com a nossa inteligência racional. Comemos demasiados gelados, gritamos a outros condutores e choramos por coisas ridículas. As paixões alteram e contrariam a força da nossa inteligência, de tal modo que fazemos coisas negras.

O lado negro da Força

Percebemos que o mito da Força no Star Wars não é Deus ou o Espírito Santo, mas é antes a experiência partilhada da razão humana e angélica. É por isso que as personagens más tentam converter os personagens bons para o lado negro desta força, levando-os para uma ira, fúria, inveja ou luxúria descontroladas. Vemos que os Sith Lords até conseguiram conquistar o Império inteiro manipulando outros através desta força da razão. Foi o que aconteceu ao Império no Star Wars. E tem acontecido em todas as sociedades humanas. A única forma de termos o "Império Contra-Atacar" é dominar as paixões através da razão através de raciocínios certos e pensamentos prudentes. Por isso, ser treinados na força é simplesmente usar o intelecto para habituar a virtude dentro de nós mesmos e na sociedade.
O lado negro da força é como o lado negro da razão humana. A razão é boa, mas pode ser distorcida e abusada para o mal - sempre através da corrupção das paixões/emoções.

Reavaliando a Força como uma analogia Cristã no Star Wars

Alguém podia dizer, "Sim, mas o Yoda consegue mover rochas com a Força e o Luke consegue fazer o pino com a cabeça através da Força. O que é que isso tem a ver com a inteligência racional?"
Eu responto, "Certos vós estais. Siiiiim."
Mas há mais que se lhe diga. Nós humanos usámos as nossas mentes para atingir todo o tipo de coisas impossíveis como voar em aviões, andar na Lua, dividir átomos e explorar o fundo dos oceanos.
As guerras, milagres científicos, curas - tudo isto é obtido através da força da recta razão.
A lição é que é a inteligência bem usada que faz grandes coisas. No Star Wars, vemos que a Força é o poder usado com rectidão para tornar uma sociedade civilizada numa sociedade civilizada. Platão, Aristóteles, Cícero e Aquino de certeza que iam aplaudir a visão que o George Lucas deu da "Força" como o único poder para ordenar a sociedade - porque todos estes filósofos perceberam que era a verdadeira razão que dava aos humanos a lei, a ordem e a civilização. Mesmo a lei natural requer a razão para se perceber.
Star Wars na verdade é uma visão política bastante certa de como a inteligência humana pode ser contrariada para chegar a uma sociedade maléfica. Os políticos maus estão sempre a quebrar a força da sua inteligência. Quando os homens recorrem ao "lado negro" temos coisas terríveis a acontecer, como isto:
Portanto, da próxima vez que alguém, depois da Missa, disser "Sim, eu gostava imenso do Star Wars, mas não deixo os meus filhos verem-no. É tão contrário à Bíblia," revejam os vossos conhecimentos filosóficos e mãos à obra. Lembrem-se: a Força não é igual a Deus. A força equipara-se à razão humana.
E lembrem-se, da próxima vez que se enfurecerem como um macaco e começarem a viver de acordo com as vossas paixões, estão a tornar-se cada vez mais como o Darth Vader. Não façam isso! Podem não ter uma conversão no leito da morte onde alguém vos vai tirar o capacete e dar uma última hipótese.
Taylor Marshall


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Presépio na Cidade

Politicamente correcta, Lisboa, no mês de Dezembro, enchia-se de estrelas e pais-natais. Faltava qualquer coisa, que ninguém tinha coragem de mencionar, até que, no ano 2000, apareceu um presépio em plena rua, que se transformou em local de encontro. Houve protestos! Uma indecência! Desonra a cidade! À noite, destruíam o presépio e despejavam-lhe lixo em cima; de manhã, o local era limpo e reconstruia-se o presépio. Um dia e outro. Aquele espaço de 3 por 4 metros parecia um campo de batalha. Outras vezes, um pára-raios e um porto de abrigo.

A Sofia Guedes, que participa na iniciativa desde 2000, conta-me histórias, recentes e antigas, encadeadas como cerejas.

– Há bocado, a Celeste passou por aqui e convidámo-la a entrar no presépio. Sentou-se uns bons minutos. Talvez se sentisse bem, a inventar numa oração para a nossa colecção, um texto lindo que falava das crianças, dos jovens, dos pais e do amor. Contou então que tinha sido prostituta durante 40 anos, mãe de três filhos... chorou, abraçámo-nos e decidiu voltar para jantar connosco, porque se sentia profundamente acolhida.

– A Marta e o João, sem-abrigo, dormem no presépio com os cães e deixam a manjedoura toda suja... Comem a mesma comida dos cães, dormem vestidos com a mesma roupa todos os dias. Trabalham com o «fogo», são malabaristas de chamas de petróleo e deitam fogo pela boca. Têm 24 e 28 anos e vivem assim há anos. Não são felizes, mas não sabem como sair daquilo. A mãe do João sai todos os dias à procura dele pelas ruas de Lisboa, para lhe dar de comer e o vestir. É uma senhora pobre, a lutar pela dignidade da família. Também ela veio jantar connosco – que grande mãe! – e volta, para repousar o olhar na imagem de Maria, que está ali à espera de todos...

– O John tropeçou no presépio. Literalmente. Tropeçou e caiu. Convidámo-lo a entrar, tratámos-lhe das feridas, rezámos com ele, demos-lhe banho e comeu connosco. Há 13 anos que não via a família, a mulher e os dois filhos. Uma instituição de tratamento de toxicodependentes ajudou-o e, depois de três meses, contactámos a família, explicámos a situação e pedimos que o recebessem de volta. Falámos com a Segurança Social inglesa, que tomou conta dele e o encaminhou para continuar o tratamento. Voltou para casa «very happy», muito grato ao «Little Jesus»!

– O Douro! O Douro era um búlgaro, pedinte, casado e pai de 5 filhos. A mulher estava muito doente e eles sem meios para a tratar. Pedia na escadaria da igreja do Mártires, perto de nós. Todos os dias vinha ajudar a limpar, a pintar, guardava-nos... Um dia, explicou que era muçulmano, mas gostava muito de estar no presépio; sonhava ir à sua terra, a Bulgária, deixar lá um filho e visitar os outros. Aliás, ele queria mesmo era ficar lá! No fim de jantar connosco, com outros colegas «pedintes» e amigos que visitam diariamente o presépio, comunicou-se a todos o desejo do Douro. Cada um deitou o que pôde num saco, mesmo os pedintes. No fim, um deles anunciou: «temos dinheiro para o Douro, a mulher e o filho irem para a Bulgária»! Foi um momento de grande emoção e a seguir de saudade, quando fomos despedir-nos deles, ao comboio que partiu de Santa Apolónia.

– Num Natal anterior, o Eber, um adolescente que entrou para partir tudo, acabou a passar a noite de Natal com um grupo de velhinhas que estavam sozinhas, que ele ajudou e serviu. Aprendeu a rezar e pediu para começar a catequese.

– A senhora Amélia entrou desesperada no presépio, a pedir para rezarmos com ela. Não ligámos, porque estávamos atarefados, mas ela insistiu e tivemos de deixar tudo. Nos dias seguintes, voltou. Depois, contou-nos a história daquela aflição: queria suicidar-se... mas, depois daquelas visitas ao presépio, tinha recuperado a alegria!

– O Francisco vem de 2001. Era um sem-abrigo, vivera na rua durante 26 anos. Alcoólico, mas um homem cheio de fé! Nunca mais nos deixou. Hoje já tem o seu quartinho e cuida muito bem de si. Está a tirar um curso de jardinagem e o 9º ano. Aprendemos tanto com ele, pela perseverança, pela humildade, por aquela dignidade que ensina tanto sobre a miséria e como se lida com ela. O Francisco é um professor de humanidade. Hoje é um dos principais voluntários. Sem o presépio, provavelmente ele hoje não viveria, e sem o Francisco talvez hoje não houvesse este presépio.

– A Toninha, o Luís Filipe, a Maria, o João...
– Ó Sofia! Estão a ligar-me, desesperados, do jornal: querem a crónica ime-dia-ta-men-te. Beijinhos!

José Maria C.S. André in Correio dos Açores, 20-XII-2015


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